segunda-feira, 19 de agosto de 2013

2ª Day Night Run 12 horas - Valinhos/SP - 2013

"O homem corre e registra suas corridas desde a pré-história!". 

Esta frase e a figura rupestre do homem correndo você encontrará na página de abertura do blog Companheiros de Corrida, pelo qual o amigo Nilo Resende, nos proporciona emocionantes histórias de gente que corre, resenhas, análises e comentários sobre corridas de rua.

Ao me deparar com aquela gravura, diga-se de passagem: "extremamente interessante e elucidativa", me dei conta de sua dimensão e consequentemente, de sua repercussão ao longo dos tempos. Acompanhe a linha de raciocínio!!!

Aquele desenho, que foi gravado em rocha à milhares de anos, assemelha-se ao que se pratica nos dias atuais, ou seja,  à todo momento estamos correndo para divulgar os dados e as informações das provas, ou seria, correndo e voando para postar os dados e as informações sobre a nossa tão amada corrida.

Quando encontrei o blog companheiros de corrida eu procurava notícias da Comrades Marathon 2013, justamente para tentar concluir e postar o relato de minha segunda participação em terras sul-africanas.

A rigor, resguardada pequenas diferenças contemporâneas, tal como a velocidade e os meios pelos quais os dados e as informações são veiculados ou transmitidos, penso que a essência humana continua a mesma, qual seja: "correr e contar suas histórias".


Sendo assim, me permita comentar sobre a participação da Equipe Bsb Parque, Brasília/DF, no decorrer da 2ª Ultramaratona Day Night Run 12 horas, que foi disputada no dia 17.08.2013, sábado, na cidade de Valinhos, São Paulo.



Essa prova que faz parte do calendário de Ultramaratonas organizadas pela  Ultra Runners Eventos, foi disputada em pista de terra de 1.350 metros, em torno da lagoa que fica no interior do Centro de Lazer do Trabalhador - Parque Ayrton Senna da Silva. Confira o circuito da prova.



Já comentei aqui que a atmosfera das provas em revezamento (equipe) é altamente eletrizante, o que de certa forma contagia os atletas, assim, no intuito de colaborar o máximo possível, você acaba superando os teus próprios limites e por via de resultado acaba indo além das expectativas.



Outro fator importante das provas em revezamento diz respeito às resenhas do pós prova. Em regra, elas são recheadas de fatos curiosos e episódios pitorescos que nos fazem lembrar da prova com muita alegria e saudade.

Nessa edição de 2013 a Equipe Bsb Parque repetiu o quarteto de 2012, que percorreu 164,7 Km durante as 12 horas de prova, sob pace de 4:22/Km, tendo a seguinte formação: Sebastião (barba) Samuel (boné branco), Fernandes (chinelo de dedo) e Silvestre (cabelo branco, eterno quelônio do cerrado e autor da postagem).




Já ia me esquecendo! não posso deixar de registrar que no dia 20.07.2013, ou seja, há quase um mês, os destemidos "Fernandes e Samuel" participaram da 2ª Etapa do Ultra Desafio 50 Milhas, organizada também pela Ultra Runners Eventos.








Aquela etapa do Ultra Desafio 50 Milhas foi disputada em estradas rurais de terra, cascalho, pedras, brita, lama, subidas intermináveis, descidas malucas e matas (cansei só de pensar!!!) na região de Morungaba, no Estado de São Paulo.





Fernandes (segundo lugar) = 08:51:32



As imagens mostram os guerreiros durante o percurso da prova e depois no decorrer da premiação da categoria solo.



Samuel (sexto lugar) = 10:48:22




Assim, é com grata satisfação que parabenizo esses dois amigos (verdadeiras locomotivas humanas) pela belíssima participação na prova de 80 Km.








Sebastião Cruz - "O Barba"

A largada da 2ª Day Night Run 12 horas foi realizada pontualmente às 10:00, sob muito sol, cabendo ao amigo "Barba" (Sebastião Cruz) iniciar os trabalhos da Equipe Bsb Parque no evento. Neste ano, no lugar das 4 voltas do ano passado, começamos correndo 2 voltas x 1.350 metros, para cada atleta, ou seja, 2.700 metros.







A seguir, com o mesmo número de voltas (2) Samuel Toledo seria o segundo integrante da Bsb Parque a experimentar o percurso. Quando ele recebeu o chip de cronometragem do Sebastião e logo concluiu a primeira volta (1.350 metros), fiquei com a atenção redobrada para evitar a "gafe" que cometi no ano passado.


Vou tentar explicar a gafe!!! na mesma estratégia do ano passado eu substituiria o capitão no revezamento, assim, em uma das substituições em 2012, acredito que na parte da tarde, eu estava na barraca da equipe, digamos assim... um tanto quanto sonolento, quando ele apareceu de forma repentina, com o chip na mão e com uma cara de poucos amigos me perguntou incisivamente:

- E aí Silvestre desistiu da prova? Não vai correr mais? 

Ao invés de responder eu perguntei: - Caramba já completou as 4 voltas?

É claro que não esperei a resposta, apressadamente peguei o chip e saí em desabalada carreira. Naquela altura eu não sabia se corria ou dava risadas.


Voltando a prova de 2013 -  Na condição de terceiro integrante, corri sem hesitação as 2 primeiras voltas em ritmo forte. Depois, comentei com os meus companheiros que aqueles primeiros 2.700 metros me fizeram lembrar o quanto foi importante os primeiros treinos de ritmo na cidade de Guaíra/PR. Importante para entender que superar aquela marca de 164,7 Km do ano passado não não seria missão fácil para a Equipe da Bsb Parque nas 12 horas de Valinhos.

O derradeiro e quarto integrante da Bsb Parque seria o amigo Fernandes, com sua corrida consistente e ritmada. Logo após entregar o chip, comecei a tomar água (garrafa de 500 ml) e antes de terminá-la vi "pequeno quatorze" completar a primeira volta de 1.350 metros. O baixinho é muito rápido e além de correr muito, é daqueles atletas voluntariosos, que sempre buscam algo a mais. 


Esse apelido (pequeno quatorze) o amigo herdou a partir do momento em que li uma reportagem sobre os "índios Tarahumaras" que vivem na Serra Madre Ocidental no noroeste do México. A história dos índios corredores foi contada por intermédio do livro "Nascidos para Correr", do escritor "Christopher McDougall".  Estou inserindo o link de um antigo comercial (vídeo) para você compreender a origem de pequeno quatorze!!!


À medida que a parte da manhã passava e os objetivos da equipe eram alcançados, eu não deixava de pensar nas palavras visionárias do Samuel, quando enviou aquele e-mail de convocação do grupo. Que tal a gente ler novamente?
"Para este ano a meta é melhorar o pace no mínimo em 3 segundos cada corredor, estamos mais experientes, mais treinados, mais fortes, mais unidos e com conhecimento da prova, vai ser moleza baixar 3 segundos, faremos uma estratégia campeã."
O resultado da dedicação do quarteto podia ser vista na planilha elaborada pelo nosso mestre Samuel, que era alimentada à cada oportunidade que um corredor retornava da pista, ou seja, até aquele momento era só alegria, apesar de um pequeno contratempo com o chip de cronometragem que não leu minha primeira volta.

Para corrigir aquele equívoco, adotamos a postura de colocar o chip no tornozelo, uma vez que o tapete de cronometragem ficava no chão, diferente do que se pratica na Volta ao Lago em Brasília (prova de revezamento), onde os tapetes de cronometragem ficam na altura dos braços. Em linhas gerais, o ritmo da equipe se mostrava acima da programação inicial.

A primeira meta foi alcançada quando a equipe se revezou durante 32 voltas, ou seja, naquele momento estávamos na segunda colocação (quarteto masculino). Daí, passamos a revezar após uma volta. Era evidente que o pace melhoraria, todavia, seria mais desgastante, obrigando cada atleta a observar atentamente a sua parte física.

A surpresa foi uma velha conhecida minha, que resolveu aparecer no final daquela tarde de sábado (dor no tendão direito). Tentei minimizar a dor trocando de tênis em 3 oportunidades, com intuito de diversificar o ponto de apoio do pé no solo. Não teve jeito, o desconforto continuava lá.


Ornaldo Fernandes - "Pequeno quatorze"

Quanto aos amigos Samuel, Fernandes e Sebastião... esses continuavam soberanos e confiantes na prova. Dava gosto ver os camaradas correrem!!!

A tarde começava a dar espaço para a noite, as primeiras luzes eram acessas, o frio chegou soberano trazendo junto um vento fortíssimo.



07:56:05 - Esse era o tempo de prova quando tive que fazer uma difícil escolha: 1) continuar na prova, com o perigo de agravar o princípio de lesão ou 2) parar de correr em medida de cautela. 

Um fantasma habitava minha mente naquele instante: eram as recomendações do "Guilherme F. Zinesi e da Viviane M. Zinesi" - Fisioterapeutas da Clínica Espaço Saúde, da cidade de Guaíra, no Estado do Paraná, que com muita dedicação estão me auxiliando e tentando corrigir as mazelas que adquiri ou produzi ao longo de meio século de vida.

Muito desapontado informei aos amigos o que estava acontecendo comigo e de pronto recebi o apoio da equipe, ou seja,  ficava a meu critério continuar ou não no revezamento. Em medida de cautela optei por não continuar na prova e da tenda passei a apoiá-los de outras formas.

O resultado prático de apenas 3 atletas correndo viria em pouco tempo, fomos ultrapassados pela terceira equipe que vinha nos acompanhando de perto, algo em torno de 3 minutos atrás.

Em razão da tarefa sobre humana, não demorou muito para que o Sebastião Cruz também apresentasse um prenúncio de lesão na parte lateral do joelho esquerdo. O ritmo do guerreiro já não era o mesmo da parte da manhã e da tarde quando rodou muito bem.

Para tentar completar a prova, foi necessário reorganizar a estratégia, Samuel e Fernandes passariam a correr 2 voltas seguidas, enquanto Sebastião Cruz se poupava, fazendo apenas uma volta.

Parecia brincadeira!!! eis uma nova surpresa: Fernandes, passou a sentir dores no joelho, nesse caso o direito. A situação da equipe que já era caótica, só agravava com o passar das horas.

Foi quando o capitão da equipe (Ogro Nascimento) convocou uma breve reunião (Samuel, Fernandes e Silvestre) para decidir o que faríamos diante daqueles infortúnios, uma vez que só ele não sentia dores musculares.

Nada ficou decidido (abandonar ou continuar). Assim, Samuel foi substituir Sebastião Cruz, enquanto eu e o Fernandes conversávamos. Naquele curto diálogo, duas frases me ocorreram:


"O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre".
"Se está no inferno!!! é melhor abraçar o capeta".

Não tive dúvidas, tirei o agasalho, coloquei o tênis de melhor amortecimento e me desloquei ao local de transição dos atletas para substituir Samuel Toledo. No início, meu ritmo caiu um pouco, porém, vagarosamente fui readquirindo a confiança e melhorando o pace de corrida.

Com a formação da equipe restabelecida, a nossa preocupação era conter o avanço da quarta equipe que já estava muito próxima, cerca de 4 minutos atrás (no calcanhar). Apesar de todos os contratempos a equipe se manteve unida, buscando a manutenção da terceira colocação. 

O lado hilário foi quando alguém cogitou que a piscina de gelo poderia auxiliar na recuperação muscular. 

O difícil era convencer alguém que a crioterapia era importante naquela altura do campeonato (noite extremamente gelada). 

Estava tão frio na cidade de Valinhos que ninguém se aventurou na piscina. Confira a foto ao lado!!!


A Equipe Bsb Parque, com muita garra se reinventou durante a prova. Não tenho palavras para explicar como saímos de uma situação deplorável e retornamos ao ritmo de prova da parte da manhã. Guardarei esse episódio como um exemplo de absoluta superação coletiva!!!

O horário de encerramento da prova estava próximo e a Equipe Bsb Parque conseguia se manter na terceira colocação.

Na cronometragem da Ultra Runners Eventos a equipe da Bsb Parque completou 122 voltas x 1350 metros, igualando a distância do ano passado, ou seja, 164,7 Km. De modo diverso, se não fosse aquele imprevisto da leitura do chip a nova marca da equipe seria 166,05 Km. 



A rigor, superamos a marca do ano passado em 1 volta: Sebastião (29 x 1.350); Samuel (34 x 1.350); Silvestre (26 x 1350) e Fernandes (34 x 1350).

Para encerrar, que tal a gente conferir imagens da estrutura que foi montada para a realização da 2ª Day Night Run 12 horas e algumas do momento da premiação dos atletas.







onde está pequeno quatorze? só vejo o troféu dele!!!
Bom amigos!!! agora que estou no conforto do meu lar... vou ouvir minha trilha sonora preferida para esses momentos pós prova... vou ouvir a música "O Sol" da Banda Jota Quest, imperdível!!!



Nos vemos no caminho e que os bons ventos soprem a nosso favor!!!


Resultados da 2ª Day Night Run 12 horas - Valinhos/SP

Geral Feminino
Colocação Atleta Nº Voltas
Gildiani Heusner 83
Nilda Claudino 76
Maria Cláudia Souto 74
Camila Maria Matte 71
Fabiola Otero 67
Aline Bernardes 67
Catia Silene 66
Maria das Graças Bernardino 64
Hedy Lamarr 62
10ª Joseane Rocha 60
11ª Adriana Soares 57
12ª Cristiani Fernandes 56
13ª Andrea Carpino Mansur 53
14ª Erika Fjujiama 51
15ª Neuma Oliveira 48
16ª Carolina Camargo 45
17ª Ana Marilza Martins 45
18ª Maria Schwarztein 45
19ª Izilda Maria Martins 43
20ª Lucina Ratinho 38
Geral Masculino
Colocação Atleta Nº Voltas
Oraldo Romaldo 92
Rogério Vaz 86
Sérgio Menducci 85
Delino Tomé 84
Adilson Pereira 84
Gláucio Monte 83
Roberto Cianfarani 81
Antonio Marangoni 76
Renato Cavallieri 76
10º Vitor Abrahão 76
11º Jerry Adriani 76
12º Geazi Peçanha 76
13º Raimundo Bernardo 75
14º José Roberto 74
15º Rovilson Basso 73
16º Joaquin Law 73
17º Dicler Agostinett 73
18º Wanderley Sena 72
19º Pedro Cianfarani 72
20º João Morelli 70
21º Ernani Rodrigues 70
22º Jorge Luis Rodrigues 70
23º Diego Lopes 70
24º Dajalma Nogueira 69
25º José Parreira 69
26º Antonio Rummel 66
27º Claiton Camargo 64
28º Adriano Nakagawa 64
29º Luiz Rogério Souza 63
30º Marcelo Kraemer 62
31º Tiago Moscardini 61
32º Fábio Ruiz 61
33º Jaceguai Junior 60
34º Edivaldo Clarindo 60
35º Nilton Carrera 59
36º Marcelo Zuquetto 56
37º Rubens Camilo 55
38º Guilherme Mansur 54
39º Flávio Mendes 53
40º Edmilson Cavalcante 48
41º Didimo Silva 46
42º Sérgio Lima 39
43º Dario Chaves 35
44º Donizete Ramos 33
45º João Carreira 32
Categoria Dupla
Colocação Equipe Nº Voltas
Nova Equipe 4 101
Nova Equipe 3 96
Secra Runners 94
Trilopez 93
Nova Equipe 1 93
Lurdes Salgados 1 92
Beto Marques + Jefferson 89
Corre Brasil 83
100 Limites + Branca Esportes 81
10ª Scania Club + Branca Esportes 78
11ª Nova Equipe 2 76
12ª Citios A. Esportiva 75
13ª Elite Lazer 66
Categoria Quarteto
Colocação Equipe Nº Voltas
K 10 Run - Triathlon 133
Juliatto Mercearia 124
Bsb Parque 122
Lurdes Salgado 1 121
Branca Esportes 119
Lurdes Salgado 2 103
Prefeitura Morungaba 87
Citios A. Esportiva 85
Lu Academia 40+ 75

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O que haverá de novo na Comrades 2014?



Estava com uma dificuldade enorme para iniciar esta postagem e informar que as inscrições para a Comrades 2014, via site oficial da competição, estarão abertas a partir de 1º de setembro de 2013.





Queria construir um texto associando as informações da data de abertura e de encerramento - 30 de novembro de 2013 - bem assim, trazer outros dados relevantes que atraísse a atenção do amigo leitor.

Uma dúvida insistia! - Como atrair e direcionar a atenção dos leitores apaixonados por corridas para a prova da África do Sul?

Em minha mente eu desenhava uma linha de raciocínio e confesso que nada do que produzia me agradava.

Após relutar muito, resolvi interagir com o "oráculo google" quando então, me deparei com um texto muito interessante, assinado pela Jornalista "Tamires Torres" sob o título: "A difícil tarefa de cativar o leitor na era do nada mais é novidade".





Nessa concepção, acredito ter encontrado o "x" da questão, ou seja, não é novidade que as inscrições para a Comrades são limitadas inicialmente à 18.000 atletas e que cada vez mais serão muito concorridas - ano após ano.





Não é novidade que você terá aproximadamente 9 meses para se preparar para o desafio, uma vez considerada a data da corrida: 01 de junho de 2014, Domingo, 05:30h, Pietermaritzburg.

Também não é novidade que a inscrição por si só não basta, tendo em vista que você deverá possuir qualificação para participar da Comrades, ou seja, deverá ter concluído no mínimo uma maratona - 42 Km - no decorrer do período de qualificação, que em regra, inicia-se no mês de junho e se estende até meados do mês de maio do ano seguinte.



Deixou de ser novidade, que para os atletas brasileiros a festa começará a partir do Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando os guerreiros e guerreiras tupiniquins se reencontrarão em mais uma nova oportunidade, normalmente na última semana do mês de maio para transpor o Oceano Atlântico, em vôos da South African Airways.




Não é novidade que você encontrará um ambiente de extrema camaradagem e companheirismo, seja antes, durante e depois da prova. 

Poderia ser novidade, más cada integrante da delegação brasileira, carrega consigo um sonho de concluir a "Rainha das Ultramaratonas" dentro de um tempo determinado, associando de imediato esse desempenho às medalhas que são distribuídas pela organização da prova.

Não será novidade a emoção de  estreantes e veteranos durante a cerimônia que antecede a largada, especialmente quando ouvirem a música "Shosholoza", que para muitos trata-se do hino informal da África do Sul e numa tradução simples seria: "seguindo em frente".



Poderia ser novidade que pessoas de mais de 70 países irão compartilhar subidas e descidas nos 87 ou 89 Kms da Comrades, entre as cidades de Durban - nível do mar e Pietermaritzburg (cerca de 650 metros acima do nível do mar).



Ainda bem que não é novidade que as pessoas, extasiadas pelo efeito catarse, se tornarão parte integrante de uma grande aglomeração de pessoas, que a seu turno, serão carinhosamente intituladas "ônibus", igualmente ao mar de pessoas da imagem ao lado, que em dado momento correm ou simplesmente caminham de mãos levantadas, celebrando a grande conquista que estará por vir.



Não é novidade o semblante inimaginável e indescritível daqueles gladiadores e gladiadoras do asfalto que se lançarão ao desafio de correr e ao final daquela longa jornada, concluirão com um sorriso enorme - antes jamais visto e por que não mencionar, dentro da meta estabelecida pela organização da Comrades Marathon - máximo 12 horas.


Há muito tempo deixou de ser novidade que para muitos amigos - brasileiros em especial - a resenha pós prova se iniciará no café da manhã do dia seguinte e se alongará pela tarde e quem sabe a noite, tamanha é a gama de assuntos e fatos pitorescos que surgem em cada jornada - Comrades.




Enfim, não é novidade que diante da magia e da beleza da Comrades Marathon, literalmente me apaixonei pela "Rainha das Ultramaratonas" desde a primeira ocasião em que pisei terras sul africanas - 2012.

Sabe qual será novidade para a Comrades 2014?

Antes que eu possa responder, retorne ao início do texto e leia somente as expressões marcadas em azul!!!

Pois bem, se as palavras que estão marcadas em azul lhe chamaram a atenção!!! - A novidade para 2014 poderá ser a sua presença no seleto grupo de pessoas que ano após ano, renovam as energias correndo a Comrades.

Se o meu prognóstico não falhar, a outra novidade será o seu relato,  que terei o prazer de postá-lo aqui, descrevendo a sua epopeia em solo africano, discorrendo de uma forma muito especial. 

Como diria "Josue Netto", quando debatemos os assuntos da Comrades, parece que estamos falando de uma pessoa, de um amigo(a)!!!

Bom!!! o propósito desta postagem foi lançar uma pequena semente em um terreno extremamente fértil (apaixonados por corrida) e tentar demonstrar que com doses diária de disciplina e dedicação, o sonho da Comrades 2014 poderá se transformar em realidade para os gladiadores(as) do asfalto, assim como aconteceu comigo em 03.06.2012.

Shosholoza!!!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Comrades 2013 - Relato de Magda Andrade & Josue Netto

"Esse espaço nasceu inspirado na vontade de compartilhar (...) as lições recebidas dos abnegados corredores de rua de nosso país".

Pois bem amigos, hoje, eu trago um texto simplesmente fantástico, assinado por Josue Netto e publicado no dia 24.06.2013, no blog "Pulso - O mundo da corrida passa por aqui"

Trata-se de uma verdadeira pérola. É óbvio que eu não poderia deixar passar em branco a oportunidade de reproduzir o texto aqui no blog "Correr é pura paixão". 

O relato é de uma riqueza de detalhes impar. Vale a pena conferir e conferir quantas vezes forem necessárias. 

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Comrades 2013 - Relato de Magda Andrade e Josue Netto
extraído do Blog: "Pulso - O mundo da corrida passa por aqui." 24.06.2013
"Enchendo linguiça...
Como a Tia Magda exigiu uma redação de oito páginas, resolvi incluir esta parte para, literalmente, “encher linguiça” e não tirar nota zero. Portanto, se alguém quiser pular esta parte não terá perdido nada. Aliás, se quiser pular também as outras partes, mal nenhum fará (neste caso, vá direto para o final que tem a letra de uma música bonita do Raul Seixas). Relatos sobre correr e viver geralmente são desinteressantes para quem lê; melhor mesmo é correr e viver!

Diz a sabedoria popular que toda história tem um começo e um fim. Ou, numa expressão mais divertida, alguma coisa só termina quando acaba. Podemos até comparar uma corrida com uma história, a começar quando pisamos no primeiro tapete de cronometragem e com fim na linha de chegada.

Mas eu, particularmente, creio que certas corridas, sejam de cinco ou de mil quilômetros, podem ser entendidas como histórias sem fim, tal a importância em nossas vidas. Difícil determinar quando tudo começou e, mesmo após pisar no tapete da chegada, fica uma sensação que ainda não acabou, que foi dada apenas uma pausa para respirar e que a história continua.


A Comrades (prefiro pronunciar “comreides” só para não matar uma piada criada pelo nosso amigo PH; horrível piada, diga-se, mas tenho que admitir que pouquíssimas pessoas tem a capacidade de criar uma) é uma dessas corridas que não tem início nem fim, que continuam mesmo quando acabam.


É uma prova também, canso de dizer, que parece ter alma, feito uma pessoa. Não sei se o meu sentimento é compartilhado por outros camaradas, mas não é simplesmente um percurso de 87 ou 89 quilômetros onde batemos o pé no asfalto por longas horas. Para mim, é como uma viagem não só de um ponto a outro, mas também por uma história iniciada há mais de noventa anos, uma oportunidade de viajar dentro de si próprio, de se descobrir, de tentar se conhecer melhor, mesmo para mim que tenho dificuldade de me entender.


Falo de Comrades respeitosamente, como se falasse de uma pessoa; de suas ladeiras e pontos de referências (Cowies Hill, Inchanga, Polly Shortts, Wall of Honour, Arthur’s Seat etc.), como portais mágicos aonde você vai superando seu cansaço e limitações.



Acho que Começou Assim

Mas, como pior do que uma história mal contada é uma história mal contada sem início nem fim, vou tentar situar como tudo começou para nós.


Ouvi falar em Comrades pela primeira vez em 23/08/09, durante a Super Maratona de Friburgo. Eu e Conrado fizemos apenas a meia maratona, enquanto os lendários “pangas” Claudinha, Magda e André correram a incrível distância de 50 quilômetros. Ainda lembro a Claudinha gritando feito uma louca que “existe corrida depois dos 42” quando passou pela marca da maratona. E também da Magda, na chegada, a dizer para alguém que tinha sido um excelente treino para a Comrades.


“Comrades? What porra is it?”, devo ter perguntado. E naquele momento, após as explicações, tornei-me tão insano quanto aqueles três ultramaratonistas, interessado em fazer aquela prova tão difícil. Estranhamente, lembrei também que um dia, acho que ainda adolescente, vira numa dessas sessões-da-tarde um filme sobre a Comrades.


Nossa primeira Comrades aconteceu em 29/05/2011, percurso de subida, com a participação de Claudinha, Aline, Bigatello e Pedro Henrique, além de mim, com o precioso suporte do professor Alexandre e de Marcus, o santo marido da Claudinha. Infelizmente, Magda não pode ir nesse ano. Nem terminada a prova e já sabíamos que iríamos retornar para o back-to-back.


E realmente voltamos eufóricos para nossa segunda prova, percurso de descida, em 03/06/2012. Aline, devido ao seu primeiro Iron na mesma época, não pode ir, mas o grupo ganhou a presença do professor Ricardo, Magda, Pedro Palmeira e Marcos Salomão, ainda com o suporte do professor Alexandre, da Louise e Isabela.


Na época das inscrições para 2012, centenas de emails devem ter sido trocados, um incentivando o outro. Lembro um email da Claudinha que simplesmente dizia “já fiz a minha inscrição, agora quero ver quem é macho e vai fazer também!”. Delicada a nossa eterna musa da Comrades!


Para 2013, devido a motivos diversos, tudo indicava que o grupo ficaria restrito a mim, Magda e Bigatello.




Os Treinos para 2013


Como sempre, iniciamos os treinos em janeiro, após um breve descanso da Ultra BR 135, 217 km que fizemos em trio (eu, Magda e Bigatello, com apoio e bulliyng do professor Flávio Doce e da Adriane, amiga da Magda).


Nossa intenção era treinarmos juntos para fazermos a prova também juntos. Infelizmente, Bigatello, com diversas lesões, não pode acompanhar estes treinos. Fui obrigado, então, a treinar sozinho com a Magda. Já são mais de 500 km a correr com esta criatura e não sei se sofrimento maior foi para os pés ou para os ouvidos. Dizia que treinar com ela era uma forma de acumular milhas para entrar no céu; como em determinados casos ganhamos milhas em dobro, já tenho o suficiente para ir para o céu três ou quatro vezes.
O Bigatello sofreu tanto com lesões que já perguntávamos onde não doía, e a resposta era simplesmente: “o cabelo”. Ele ainda fez a Ultra do Rio Grande, 50 km, para variar sem o conhecimento do treinador, comigo entrando de gaiato, para saber se teria condições de correr a Comrades, mas infelizmente não foi possível.

Sou testemunha de quão puxados foram esses treinos para a Magda, que precisou de muita garra e determinação para superar diversas dificuldades, inclusive lesões.


Lembro-me de treinos em que ela já iniciava super cansada, caminhando, e ia pouco em pouco se superando até cumprir distâncias de 30, 40, 50 km.


No dia 12/05 fizemos o nosso último longo de 60 km e algo muito marcante aconteceu. Já tínhamos corrido cerca de 40 km, saindo do Alto até a Lagoa, voltando ao Alto, descendo para a Usina. Quando subíamos da Usina para o Alto, ritmo ainda confortável, repentinamente Magda foi tomada de uma estranha aflição e começou a chorar, mesmo sem nenhuma dor ou desconforto. Concluímos o treino e ao chegar em casa ela recebeu a notícia que seu pai fora internado horas antes após um enfarto. Nossa impressão é que durante o treino ela, de alguma forma, soube do que acontecera.


Enfim, terminávamos nossa preparação para a Comrades, mas a Magda não tinha certeza ainda se poderia viajar ou não.


 A Viagem


Infelizmente, o pai da Magda veio a falecer no dia 22/05 e ela, após tomar todas as providências que precisava, decidiu por viajar.


Partimos no dia 29/05, por volta das 11 horas. Viagem cansativa, Rio – São Paulo – Johanesburgo – Durban. No Galeão, a presença do Bigatello, junto com a Denise, a nos incentivar e encomendar coisas do free-shopping, inclusive um imprescindível aparador de pelos nasais (a conhecida e incurável compulsão de comprar). Em Garulhos, Pedro Henrique a nos dar semelhante força, mas sem a listinha de compra.


Conversas triviais com corredores de todo o Brasil, cada um com suas experiências, temores e expectativas. Magda a revelar um desconhecido lado tiete, quase a desmaiar de emoção, pedindo freneticamente o autógrafo de um corredor de elite; disse ela que era para a Claudinha, mas tenho dúvidas. Fiquei decepcionado, é claro, pois há muito tempo corro com ela e nunca me pediu um autógrafo.


Voo partindo com duas horas de atraso, muita turbulência. Segundo Magda, parecia que o avião iria cair. Até me pediu papel e caneta para escrever um bilhete-testamento para a mãe e para o filho e custou a entender que dificilmente o mesmo seria encontrado junto com a caixa-preta do avião, que na verdade é laranja como a Equipe FDV (Filhos do Vento). Mas chegamos bem, no horário previsto, na quinta-feira, por volta das 14 horas, praticamente 24 horas de viagem, inclusive as esperas em aeroportos.


Em Durban


Ficamos num hotel simples, mas com excelente localização, em frente à praia, permitindo ir a pé para a feira da corrida, largada, restaurantes. Ao contrário dos anos anteriores, optamos por não alugar carro, mas fizemos praticamente tudo o que pretendíamos.


Até que tentei ser nosso guia, mas quando íamos à feira da corrida, após muito tempo a caminhar, vimos uma placa informando “Pietermaritzburg a 10 km”. Desconfiado que estivesse um pouco perdido, deleguei esta função à Dona Magda e ela até que se virou direitinho. Menos mal que em pouco tempo eu já conseguia ir da recepção ao quarto do hotel sem me perder.


Na própria quinta-feira fomos retirar o kit e conhecer a feira da corrida, como sempre bem variada e organizada e com um atendimento preferencial para os estrangeiros.


Interessante que no kit da Magda veio um OB como brinde; fui logo ver o meu kit, ansioso, pois, tal como o sutiã, o primeiro OB deve também ser inesquecível. Mas para os meninos o brinde era um desodorante. Apenas uma indicação de quão profissional é a organização da prova.


Alguma dificuldade para comer, pois alguns restaurantes parecem seguir a estranha regra de fechar para almoço e jantar.


Às vezes também foi desagradável caminhar pela orla de Durban. Mais de uma vez fomos assediados insistentemente por pessoas adultas pedindo dinheiro. Magda, inclusive, teve que ouvir a versão em inglês do nosso já conhecido “vocês gostam mesmo é de ser roubados...”.


Na sexta-feira de manhã fizemos nosso último treino de 8 km em ritmo bem moderado, só para tirar o cansaço da viagem.


No sábado, fomos rapidamente à praia, pois Magda queria experimentar as águas do “Oceano Pacífico”. A princípio achei que estava brincando, mas quando ela repetiu “Oceano Pacífico” pela quinta vez, percebi que geografia nunca deve ter sido o seu forte no primário. Ela achou quente a água, eu que era gelada, mas mesmo assim tornei-me “Iemanjá bi-oceânico”.


Ela aproveitou o banho de mar para jogar parte das cinzas de seu pai no Oceano Índico, uma linda e emocionante homenagem.


Em seguida fomos visitar o estádio da Copa, passeio quase obrigatório, e almoçamos uma comida inédita: massa.


No jantar, para ser diferente, novamente massa. Comentário comum a todos de nunca mais comer massa na vida. Encontro agradável com corredores do Rio: Nadjala, Rodrigo, Valdir. Ilson e Froes (da Speed) e Álvaro (Chão do Aterro).


Última noite de quase sono antes da prova, ansiedade grande, pesadelo de todo corredor de perder a hora da largada, de esquecer o chip ou o tênis.



A Corrida

Acordamos às duas da manhã. Café no hotel às três. Partimos a pé para a largada, que seria às 05h30min, bem pertinho do hotel.

O ritual emocionante de sempre. Toca-se o Hino Nacional da África do Sul, a tradicional Shosholoza, que faz arrepiar, outra música que pouca gente conhece (Carruagem de Fogo). O tradicional canto do galo, o tiro de canhão e finalmente a largada. Demoramos cerca de sete minutos até passar pelo tapete.

A todo o momento a visão do mar de corredores a nossa frente; nos lugares mais estreitos o som cadenciado de centenas de pés tocando o asfalto; na rodovia, caminhões que passam tocam suas buzinas estridentes a saudar os corredores; na linha férrea, a surpresa de uma maria-fumaça e seu apito também a nos saudar. Enfim, impossível ignorar as sensações que a manhã nos reserva e que nos ajudará a driblar o cansaço e o tempo até nossa chegada em Piterqualquercoisa no final da tarde.


A minha frente vejo uma corredora estrangeira chamada Magda e aviso minha amiga que ela tem uma xará na prova. De imediato a nossa Magda aperta o passo e puxa conversa: “Hi Magda...”. Não demora muito e outra Magda surge (“que nome mais comum!”, penso eu) e mais uma vez Magda faz o que menos gosta, conversar, “Hi Magda...”. Pergunto a mim mesmo se será assim até o final da prova, mas o encontro internacional das Magdas ficou por aí. Detalhe que ela encontrou todas as Magdas que concluíram a prova! E sou testemunha que a nossa Magda ficou em primeiro lugar entre suas xarás, o que não deixa de ser uma espécie de pódio.


Faço uma aposta com a Magda tupiniquim: se ela encontrasse um Josué pelo caminho iria carregá-la nas costas até a chegada; desnecessário dizer que ela cruzou a linha correndo.


A cada 10 km faço contas sobre nossa velocidade média, quanto tempo falta para terminar, qual a velocidade que precisamos imprimir. Fico cada vez mais tranquilo que terminaremos sem susto. Mas não falo nada ainda à Magda, pois depois de tantos quilômetros correndo juntos já a conheço e sei que ainda é cedo e ela pode ficar ansiosa.


Chegamos ao Wall of Honour. Magda faz uma parada rápida e deposita mais um pouco das cinzas de seu pai. Seu Herval agora está ao lado de corredores que fizeram história na Comrades. Certamente que lá no céu também tem uma edição especial da Comrades e que ele vai estrear com êxito (só espero que tenha o devido respeito e não dê “pedala” em Seu Joaquim e Dona Isabel, que já são mais do que Green Number lá em cima).


Antes, rosas foram distribuídas, pego uma para mim e outra para a Magda. Passamos agora pelo Arthur’s Seat e as depositamos, pedindo licença e benção ao lendário corredor para continuar. Com certeza agora iremos chegar.


Passamos da metade da prova com cinco horas e vinte e três minutos. Digo à Magda que estamos bem, que chegaremos no tempo mesmo que nosso ritmo caia. Chegamos à Inchanga, a ladeira é forte e depois de uma maratona, andar é inevitável. Mar de gente à nossa frente e atrás de nós, impossível não sentir a energia que nos cerca.


Reparamos nos corredores a nossa volta. Pessoas comuns, sofrimento estampado no rosto, mas com uma forte determinação. Penso que qualquer corredor pode fazer esta prova, desde que queira e que treine. É uma prova difícil, com certeza, mas possível e que vale a pena.


Notamos também os números de peito (e costas) dos corredores, com diferentes cores a indicar se são estrangeiros ou sul-africanos, se buscam a medalha back-to-back, se estão na nona vez e aspiram ao cobiçado green number ou se já são veteranos com dez ou mais corridas (alguns com impressionantes vinte, trinta ou mais provas no currículo!). Percebo que coloquei no peito, em vez de nas costas, o número que indica que já corri duas Comrades e penso que terei que voltar no ano que vem só para corrigir esta falha.


Passamos por diferentes grupos étnicos e sociais. A elegância dos rapazes da escola secundária, a dor que nos causa as crianças doentes do hospital que neste dia ficam à beira da estrada vendo os corredores, as lindas meninas louras batendo palmas e marcando nosso ritmo por alguns metros, a energia do canto e das danças africanas, o canto-oração dos indianos, o cheiro do churrasco à beira da estrada (acho que fazem só para nos maltratar), os espectadores a gritar Brasil o tempo todo.


Gritam tanto “Go Brasil!” que no final você nem entende mais. Comento com Magda que quando chegar ao hotel a primeira coisa que farei será entrar no Google e pesquisar o que é este tal de “Brasil”.


Ao contrário dos outros anos, o calor é forte. A água que jogamos no corpo já bate quente, parece evaporar antes mesmo de tocar o solo. Ainda bem que os pontos de apoio são muito próximos, o que nos permite ainda beber água e energade, mas nem conseguimos beber Pepsi, de tão quente que encontramos.


Também venta muito. Magda, “a exageragda”, diz que é um tornado. Até mesmo ladeira abaixo o vento nos atrapalha, parece nos empurrar para trás. Nem adianta sermos Filhos do Vento, pois “papai” parece irritado conosco.


O forte calor e o tornado magdiano, inesperados, são até motivos de piada de um corredor a dizer que pediria reembolso na chegada porque isto não estava incluso no pacote da prova.


Em outro momento, uma corredora jovem, vinte e poucos anos talvez, encontra a família à beira da estrada, o que desencadeia uma sucessão de abraços, beijos, carinhos e recomendações. Diante daquela doce cena familiar, Magda irrompe em prantos, a ponto de eu temer que seja retirada da prova por um carro de apoio que passava por perto.


Mas nossa tranquilidade é tamanha que podemos simplesmente caminhar nas subidas e planos e ensaiar uma corridinha leve quando ladeira abaixo. Tio Ricardo pode ficar orgulhoso da corrida técnica e regular que fizemos do princípio ao fim.


Chegamos ao ponto mais alto da prova, a 870 metros de altitude, em Umlaas Road, e faltam 19 km para o final. Finalmente Magda joga ao vento o que ainda tem das cinzas de seu Pai. Comentamos que o vento é tão forte que seu Herval será espalhado por toda a África, desde a Cidade do Cabo até a foz do Rio Nilo.


Magda dispara na minha frente, de propósito deixo-a um pouco só, pois aquele momento é todo dela. Depois ela me diz que simplesmente ficou energizada e quis correr mais forte, só isto!


Chegamos bem dispostos à temível Polly Shortts, que dizem ser a última ladeira da prova, o que é uma grande mentira, pois diversas outras nos serão apresentadas ainda, até porque depois de tantas horas a correr, qualquer quebra-molas pode parecer um Himalaia. Nesse ponto, todos andam, até mesmo corredores bem preparados, à exceção de um gaiato que passa por nós simulando correr e gritando “sweet race, sweet race!”.


Somente no ponto mais alto desta ladeira é que tentamos correr novamente, apenas para fazer boa figura no vídeo da prova. A partir deste ponto restam oito quilômetros para o fim da prova e falo para a Magda: “Sabe aquele último treininho ridículo que o Ricardo nos passou? É o que falta para nós!”.


Brinco com ela e digo que a cada hora o “Instituto Nettofolha” irá atualizar as estatísticas. Algo do tipo, “faltam 10 km, daqui para frente podemos caminhar num ritmo de 4.5 km/h que chegaremos”.


Chegamos às 11 horas de prova e digo “se você tiver alguma promessa a pagar, pode ir de joelhos até o fim que dá tempo”.


Enfim, Pietermaritzburg. A chegada dentro de um estádio é sempre emocionante. Parece que você está sozinho, que todo o público aplaude e incentiva unicamente a você. É um momento todo seu. Nunca fui noiva, mas acho que uma mulher deve sentir algo semelhante, mas sem feder a suor, quando entra na igreja para casar.


Após cruzar a linha de chegada, uma medalha para mim, duas para a Magda, inclusive a back-to-back.


Acho que não sou uma boa companhia para estes momentos, pois tenho dificuldade em ter, compartilhar ou entender emoções. Mas acho que para Magda foi um momento especial, por tudo o que ela passou até atingir aquela marca. Melhor seria, com certeza, se nesse momento ela estivesse com uma pessoa mais festiva e alegre para dar vazão a tudo que sentia.


Será que Terminou?


Medalhas no peito, felizes e inteiros. Acho que seis meses de treino e dedicação tiveram êxito. Hora de encontrar os camaradas na área internacional, ouvir as histórias alegres de quem chegou, compartilhar a tristeza de quem não conseguiu desta vez. Olhar quem chegou depois, os ônibus com suas multidões, o desespero de quem entra no estádio em cima do laço, a cruel contagem regressiva, o frio e exato tiro às 17h30min que encerra a prova, o semblante intraduzível de quem chega, mas não leva a medalha.


A esses últimos uma especial admiração, por não terem desistido, de acreditarem até o final; poderiam simplesmente sentar no meio-fio e esperar um carro de resgate, mas foram até o fim; são vencedores também e provavelmente no próximo ano estarão lá novamente para, mesmo sem conhecerem, praticarem a linda canção "Tente outra vez", de Raul Seixas (receita de Marcio Villar):


Não diga que a canção está perdida

Tenha fé em Deus,
Tenha fé na vida 
Tente outra vez 

Beba (Beba) Pois a água viva ainda tá na fonte 

Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou, não, não, não

Tente

Levante a sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça aguenta se você parar 
Não, não, não, não, não, não

Há uma voz que canta, há uma voz que dança

Há uma voz que gira 
Bailando no ar

Queira (Queira)

Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo
Vai, tente outra vez

Tente (Tente)

E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez



A volta para Durban no ônibus da organização poderia ser mais bem organizada, mas chegamos ao hotel. Depois do banho fomos jantar e o restaurante já estava fechado. Doutora Magda, agora travestida de Nutricionista, recomenda uma refeição saudável: sanduíche com batata-frita, bastante gordura. Pior, ou melhor, que deu certo, e me senti totalmente recuperado. Basta saber se Doutora Júlia irá aprovar.


Comentário comum a todos os corredores experientes que encontrávamos: foi a Comrades mais difícil que já correram, devido ao forte calor e ao vento. Orgulho maior por termos conseguido!

Almoço do dia seguinte também inesquecível. Começou às 14 e terminou às 21 horas, confundindo-se com o jantar. Presença novamente dos camaradas da Speed e Chão do Aterro. Quarenta e uma canecas de chope (21 litros) consumidas (só eu, abstêmio que sou, tomei dois litros). Os mais variados assuntos conversados, lendas urbanas inventadas, razões para rir de tudo e de todos.

No dia seguinte, a volta para casa. No aeroporto de Durban alguém pergunta à Magda: “volta ano que vem?”; ela responde: “não sei...”. Grande mudança para quem até o dia anterior teria respondido “nunca!”'.


Josue Netto

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O lado perverso de um capitão de equipe!!!


No dia 17 de agosto de 2013, sábado, a Ultra Runner Eventos, apoiada pela Secretaria de Esportes e Lazer da Prefeitura de Valinhos/SP, realizará a 2ª Day Night Run - 12 horas.



A prova será corrida em pista de terra de 1.35 Km, em volta da lagoa que fica no interior do Centro de Lazer do Trabalhador - Parque Ayrton Senna da Silva.



A largada para as modalidades solo (masculino e feminino); duplas e quartetos será às 10 horas da manhã, com previsão de término às 10 horas da noite.

Particularmente, adoro provas em equipe porque no contexto geral, você acaba superando os teus próprios limites quando busca ajudar a sua equipe ao máximo. Nesse propósito você acaba indo além do que imagina.

Vou usar como exemplo a prova do ano passado, quando o quarteto da Equipe Bsb Parque percorreu 164,7 Kms durante as 12 horas de prova, sob um pace de 4:22/Km. Leia a resenha da prova de 2012:

Na ocasião a equipe esteve formada pelo Capitão Samuel Toledo (1), pelo veloz Ornaldo Fernandes (2), pelo perseverante Sebastião Barba (3) e pelo quelônio do cerrado que assina esta postagem (4).

Em 2013, logo no primeiro e-mail postado pelo Capitão, me deparei com uma mensagem subliminar, inserida no trecho que abaixo transcrevo:
"Para este ano a meta é melhorar o pace no mínimo em 3 segundos cada corredor, estamos mais experientes, mais treinados, mais fortes, mais unidos e com conhecimento da prova, vai ser moleza baixar 3 segundos, faremos uma estratégia campeã."
Em breves palavras, qual seria a mensagem subliminar: - se não melhorar o pace em 3 segundos vai ficar de fora nas próximas convocações. Percebi de imediato que a tarefa não seria molezinha como o capitão afirmou!!!.

Aqui nasce o lado perverso de um capitão de equipe, por diversos meios tentei fazê-lo abandonar a novíssima estratégia, ou até mesmo, dar um refresco para os mais idosos, uma vez que estou próximo de completar meio século de vida!!! e aquilo que ocorreu no ano passado foi uma grata surpresa. Só isso e nada mais!!!

Conversas e mais conversas, não consegui demovê-lo da estratégia campeã. 

Sabe qual será o resultado prático disto pessoal? - em todos os momentos que eu for para a pista terei que fazer 4:30/Km.

Não querendo dar trégua ao azar fui buscar uma pista com as mesmas características de Valinhos e acabei arrumando um local próximo à minha residência aqui na cidade de Guaíra, Paraná, com os mesmos 1.35 Km, no Parque Marinas, um local bem arborizado e que fica às margens do majestoso  Rio Paraná.

Parque Marinas - Guaíra/PR
No último domingo, 07.07.2013,  fui lá para conferir a parte fisiológica e lancei-me a correr no ritmo do ano passado. 

Aqueles 4 tiros de 1.35 Km me fizeram ficar com gosto de sangue na boca, sem mencionar que o Garmin quase pifou de tanto apitar alucinadamente para avisar que eu estava acima da frequência cardíaca de segurança.

Dois são os propósitos desta postagem, sendo eles: 1) fomentar debate sobre as ações de um capitão de equipe; 2) se a memória não falhar... parece que o intuito do amigo (da onça, penso eu!) é quebrar a concorrência... só pode!!!

Com a palavra os amigos... deixem seu recado, comentário, avaliação.