quinta-feira, 3 de julho de 2014

Correndo e desafiando os limites da Ilha.

Certa oportunidade, o amigo Josué Netto escreveu que determinadas corridas, independente da distância a ser superada, podem ser entendidas como história sem fim, tal a importância em nossas vidas e que após a aventura ou superação do desafio, fica a sensação que aquele episódio ainda não acabou, que foi dada apenas uma pequena pausa para respirar e que a história continuará.

Hoje, embora um pouco tardio, trago um texto assinado por Samuel Toledo, referente a participação da dupla Samuel e Fernandes, durante a 19ª edição da tradicional Volta à Ilha, em abril de 2014, na belíssima cidade de Florianópolis, Santa Catarina.

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Amigos,

Se algum dia, no decorrer de uma conversa com pessoas que pratiquem corrida, você mencionar: "Florianópolis", vai ouvir imediatamente a expressão "Volta à Ilha".

Veja a maneira com que os organizadores fazem a introdução no Regulamento Geral:
Na Volta à Ilha, o esforço físico corre lado a lado com a diversão. Esta é uma prova na qual um segundo por quilômetro faz toda a diferença no resultado final. Os trechos apresentam graus de dificuldade variada e a concentração, o preparo e a solidariedade são as chaves para correr na frente. Cada nova curva traz uma paisagem inesquecível e um novo desafio para cada atleta.
Penso que minha relação de simbiose e paixão pela prova, começou em 2007, quando participei em dupla, no antigo percurso de 150 Kms.

Repetidamente, já retornei outras 7 vezes à Florianópolis, ou seja, ano após ano, tenho participado da aventura de contorná-la, sendo 4 vezes em duplas - 2007, 2012 a 2014 - e outras 4 vezes em quarteto - 2008 a 2011.

Alguém mais atento ao regulamento poderá discordar e comentar que não existe a modalidade quarteto. De certo modo ele terá razão!!! - Por quatro ocasiões, efetuamos a inscrição de uma equipe de 8 participantes, entretanto, somente 4 atletas correram a prova de maneira efetiva.

Naquelas quatro oportunidades, nosso quarteto não admitia viajar de Brasília até Florianópolis, cerca de 1.677 Kms, para correr tão somente um pequeno trecho, queríamos desfrutar aquele desafio e o cenário paradisíaco das praias, morros e trilhas, de forma intensa, quanto maior fosse a distância, melhor seria.

Entre uma e outra corrida, recordo-me que até 2011, a distância do desafio era de 150 Kms e somente a partir de 2012, ficou com o formato atual, reduzindo-se 10 km, porém, crescendo em nível de dificuldade, tendo em conta os morros e praias que foram acrescentados.

Volta à Ilha - Florianópolis
Como o próprio nome menciona, é uma corrida onde percorremos todo o contorno de Florianópolis, totalizando 140 kms, em 18 trechos previamente estabelecidos, sendo o menor de 4,7 km e o maior de 15,2 km.

Durante o revezamento você corre sobre "asfalto, terra, praia com areia fofa, duna, trilha e calçamento".

Sem receios de ser feliz, você irá se deparar com diferentes relevos: "subidas, montanhas, planos e descidas".

Em resumo: - É uma competição que desafia e testa os limites do corredor.


São 8 as categorias de equipes no Revezamento Volta à Ilha - aberta; aberta mista; feminina; veterana 40; veterana mista; veterana 50; dupla e participação.

Nos dois últimos anos - 2013 e 2014 - revezei com o amigo Ornaldo Fernandes, um corredor muito forte e extremamente veloz.

Com grata satisfação, em 2013, conseguimos concluir a prova em 12 horas, 48 minutos e 47 segundos, obtendo a sétima colocação, sob o ritmo de 5:30 min/km.

Para o ano de 2014, tínhamos a meta de melhorar nossa marca anterior, mas já sabíamos que não seria tarefa fácil atingir aquele objetivo.

O dia da aventura - 12 de abril de 2014.

19º Revezamento
Volta à Ilha - 2014
A partir das 5 horas da matina e com intervalos de 15 minutos, as equipes iniciaram o revezamento, em regra, as mais lentas largam logo cedo e as mais rápidas largam um pouco mais tarde. Neste ano, a Volta à Ilha contou com aproximadamente 400 equipes, entre as quais, 22 duplas.

Na escuridão da madrugada - resolvemos que a estratégia de nossa dupla seria a mesma do ano anterior, que nos permitiu revezar trecho a trecho. No planejamento inicial, eu correria os trechos impares e o Fernandes os pares. Na matemática, seriam 73,5 kms para mim e o restante: 66,5 kms para o Fernandes.

No ano anterior, nosso desempenho foi semelhante, pace de 5:30 min/km, em razão do contratempo ocorrido com o Fernandes, quando sentiu a musculatura da panturrilha nos cinco últimos trechos.
  
Samuel no local da largada
Chegamos ao local da largada às 4:30, encontramos diversos amigos e tiramos algumas fotos, pois durante a prova seria muito complicado para o Marlon - motorista do carro de apoio - dar o suporte para todas as necessidades da dupla.

Literalmente, tudo seria muito corrido.

O nível de "stress" é alto, pois quando você termina um trecho, imediatamente tem que se hidratar, alimentar, trocar a camisa e por vezes, substituir o tênis, para então, seguir para o próximo ponto de transição.

Fernandes, Marlon e Samuel
Nossa dica é contratar motorista e/ou equipe de apoio que conheça muito bem o percurso, do contrário, com certeza a equipe terá problemas.

Seção 1: Avenida Beira Mar x Bairro João Paulo - 7,1 km.

Às 05:00 horas em ponto, foi dada a largada, o primeiro trecho com 7,1 km, é considerado fácil, eu havia planejado repetir o ritmo do ano passado, algo em torno 5:12 min/km, entretanto, as demais duplas estavam voando baixo, acabando por contaminar o meu ritmo inicial. Acabei rodando sob o pace de 4:58 min/km e ainda assim, estávamos na 19ª colocação.

Logo que terminei a seção, percebi que o ritmo estava muito forte. Fiquei intrigado se as demais duplas estavam muito bem ou se elas estariam acima de suas capacidades e no decorrer da prova, muitas iriam quebrar!!!

Não sabendo a resposta, resolvi ser bastante conservador nos próximos trechos, justamente para não prejudicar o final de nossa prova.

Seção 2: Bairro João Paulo x Rodovia SC 401 “Office Park” - 4,8 km.

Apesar daquela 19ª colocação no primeiro ponto de troca - categoria duplas - a diferença entre a 6ª dupla e a nossa era de 4 minutos e 16 segundos. Sabendo que o trecho tinha somente 4,8 kms, era óbvio que o pequeno Fernandes iria diminuir aquela diferença.

Na avaliação da comissão organizadora, tratava-se de uma seção fácil, com percurso em calçamento e asfalto.

Sem hesitar, Fernandes percorreu o trecho em 21’41” - pace de 4:31 min/km, representando a quinta melhor marca entre as duplas, que nos colocou no 14º lugar.

Seção 3: Rodovia SC 401 “Office Park” x Santo Antônio - 8,3 km.

Meu próximo trecho era de 8,3 km e avaliado como difícil, é um percurso no asfalto com muitas subidas. Quando comecei a correr, mentalizei um ritmo confortável, pois ainda teria mais outros sete trechos pela frente.

Com aqueles pensamentos, percorri aproximadamente 4 kms, quando então, encontrei o corredor da dupla da Equipe Zona Alvo, nº 518, da cidade de Aracaju, Sergipe e juntos, compartilhamos todo aquele restante de trecho.

Acredito que em razão da boa companhia, não percebi que estava correndo melhor do que eu esperava, ou seja, pouco abaixo de 5 minutos por km, concluí o trecho em 40’57”, pace de 4:56 min/km.

Seção 4: Santo Antônio x Praia de Sambaqui x Praia da Daniela - 8 km.

Seção 4 - Travessia de BarcoFoto: Jessé Giotti - Agência RBS
O quarto trecho, de 8 km, tem como peculiaridade a travessia de barco ou banana boat, ou seja, após o percurso de 5 km de calçamento e estrada de terra, o atleta chega à Praia de Sambaqui, sobe na embarcação, que o leva até à Praia da Daniela, na outra margem.

Ao desembarcar, terá mais 3 kms pela areia da praia, até o próximo ponto de troca. É importante ressaltar que o tempo gasto na travessia é anotado pela organização e depois, descontado do tempo total das equipes.

Um tanto quanto encantado com aquela mistura de passeio e corrida,  Fernandes concluiu o trecho em 34’08”, pace de 4:16 min/km.

Seção 5: Praia da Daniela x  Forte x Jurerê - 5,1 km.

O quinto trecho, com 5,1 km, considerado moderado, possui o percurso em trilha (mata fechada) e praia, sobressaindo-se a subida do forte, extremamente difícil. Logo a seguir, quando a praia começa, a corrida se torna mais tranquila na areia firme.

Antes de iniciar a Seção 5 - encontrei meu amigo Fábio Machado, que também iria correr o trecho e com ar de desafio (no bom sentido) disse que me alcançaria.

Aquela frase ficou martelando minha mente. Fiquei pensando, pensando, pensando, quando é que ele me alcançaria de fato.

No final, consegui vencer o fantasma que habitava minha cabeça, fechei o trajeto sob o pace de 5:16 min/km, com 26 minutos e 52 segundos (ufa!!!).

Seção 6: Jurerê Tradicional x Cachoeira do Bom Jesus - 5,3 km.

O sexto trecho, possui 5,3 km, com a avaliação moderado, percurso de praia, asfalto e praia. No trajeto em asfalto, existe uma subida acentuada, porém, nada que impedisse ao Fernandes concluir o trecho em 23’46” com pace de 4:29 min/km.

Naquela altura da prova, a maior dificuldade dizia respeito ao carro de apoio, que passou a ter dificuldade em chegar a tempo aos pontos de transição, uma vez que foi necessário percorrer uma volta enorme, sem contar que as vias de acesso, começavam a ficar congestionadas com os veículos das equipes.

Seção 7: Cachoeira do Bom Jesus x Praia Brava - 10,4 km.

As primeiras vítimas da prova começam a aparecer a partir do sétimo trajeto, que é considerado pela organização como "o segundo mais difícil da corrida".
Altimetria Seção 7
A rigor, são 10,3 kms, passando por praia, asfalto e trilha. Até a entrada da trilha, que começa no km 6, a tarefa é de certa forma fácil, assim, consegui manter o ritmo de 5 minutos para cada km.

No sentido oposto, quando cheguei na parte da trilha, a coisa mudou de figura. É inacreditável, mas existem pontos em que você é obrigado a subir apoiado na vegetação. 

Ao puxar pela memória, lembrei-me que entre o sétimo e oitavo km, minha frequência cardíaca foi às alturas, com pico de 184 bpm, embora eu tenha levado 14 minutos e 35 segundos para concluí-lo.

Ao final do trecho, estava sedento e exausto. Naquele momento, os dados da cronometragem indicavam que éramos a 11ª dupla. O tempo gasto: 01h19'51" - o ritmo 06:43 min/km.

Seção 8: Praia Brava x Praia dos Ingleses - 5,8 km.

Extenuado, demorei para encontrar nosso veiculo, o motorista Marlon, havia estacionado longe do ponto de transição.

Ainda bem que o amigo Fernandes é um excelente mestre cuca. No sábado, quando estávamos passeando pelo comercio local, ele comprou um pequeno fogão, de uma boca, e à noite, preparou uma deliciosa sopa, ainda no hotel.

Daí, para a prova, compramos pacotinhos de caldos que só precisariam de água quente.

Considerando que meu trecho foi longo, ele teve tempo de preparar o "tal" caldo, e assim que cheguei ao carro, encontrei a "iguaria" ainda quente, tomei e me senti revigorado.

Em nova oportunidade, nosso desafio seria o deslocamento de carro daquela seção para a próxima, uma vez que o corredor teria que correr um trecho de 5,8 km por praias e trilhas.

Com o trânsito cada vez mais complicado, era quase impossível para o veículo de apoio chegar ao ponto de transição a tempo e à hora, pois as equipes mais rápidas estão passando e o congestionamento é inevitável.

Em face daqueles fatores, acreditei que não estaríamos no ponto quando o Fernandes chegasse. A princípio, contava que ele ficaria esperando por alguns minutos para não prejudicar nosso planejamento, todavia, assim que chegamos ao ponto de troca, fui logo avisado pelo amigo Fábio Machado que o Fernandes já havia passado.

Este trecho é considerado difícil, com praia e trilhas em morro, ele correu o trecho em 33’38”com pace de 5:48 min/km.

Seção 9: Praia dos Ingleses x Praia do Santinho - 4,7 km.

Sem outra alternativa, retornei o mais rápido possível para o carro e saímos para o próximo ponto, no caminho, fui conferindo nossa programação e fiquei extremamente preocupado, não encontrava solução para equilibrar os kms, pensei comigo: - Seja o que DEUS quiser!!!

Mal havia chegado ao ponto de transição, Fernandes apareceu, pegou minha garrafa de água e disse que iria fazer o próximo trecho, não tive tempo para contra argumentar, ele saiu voando baixo.

Aquele era um trecho considerado fácil, de 4,7 km, em praia e trilha, que foi pulverizado em 21’23”, sob o pace de 4:33 min/km.

Resumindo: com o imbróglio do congestionamento dos veículos, pequeno quatorze - personagem de um antigo comercial de tv - estava correndo o terceiro trecho consecutivo.

Seção 10: Praia do Santinho x Moçambique - 8,4 km.

O cenário paradisíaco do trajeto, destoava do nível de dificuldade do terreno - trecho muito difícil - com 8,4 km, em asfalto, dunas, trilhas e estrada de terra.

Ocorreu que não estávamos ali à passeio, assim não dava para curtir o local totalmente.

No início da seção, há um túnel formado pela vegetação densa, com largura aproximada de 1,5 metros, piso em areia com seus lados e a parte superior fechada por vegetação.

Após transpor aquele obstáculo natural, você se depara com as dunas, areia muito fofa onde correr é extremamente difícil. Na sequência, uma estrada de terra margeando a belíssima praia, que te chama para um maravilhoso e improvável mergulho.

Nas minhas oito participações na Volta à Ilha, já corri o trecho em cinco oportunidades.

O veloz Fernandes concluiu mais um trecho em 46’37” com pace de 5:33 min/km. Na soma dos três trechos, o resultado foi 18,4 km, tempo gasto de 1h41’39”, pace médio de 5’23”. De forma definitiva, agora estávamos em sétimo lugar.

Seção 11: Moçambique x Barra da Lagoa - 5,7 km.

Enquanto esperava, refiz as contas e se não houvesse mais surpresas, Fernandes fecharia a Volta à Ilha com 71,2 km, um pouco acima da minha rodagem, que somaria 68,8 km.

Fui para a transição e enquanto aguardava, tomei um banho de chuva. O trecho era de 5,7 kms, considerado muito difícil, praticamente em areia fofa.

Confesso que o episódio da quebra de nossa programação me tirou energias e enquanto esperava o Fernandes, lembrei-me que só havia tomado o caldo (sopa), com tudo aquilo que estava acontecendo, esqueci de me alimentar corretamente.

Em uma corrida de revezamento, o tempo realmente voa, e se não houver disciplina para fazer criteriosamente o planejado sobre alimentação e hidratação, você estará perdido.

Eis que visualizo o Fernandes chegando, daí, esqueço a fome e o cansaço, imediatamente, começo a correr meu trecho.

Coincidência ou não, naquele instante a maré estava baixa, me permitindo fugir da areia fofa, fechei em 32’07” com pace de 5:38 min/km.

Seção 12: Barra da Lagoa x Praia da Joaquina - 8,1 km.

O percurso de número 12 é considerado muito difícil, em asfalto e calçamento com 8,1 km, possuindo duas subidas fortes.

A primeira delas, uma verdadeira parede, onde Fernandes mostrou que estava muito bem preparado para a tarefa e que ainda tinha muita lenha para queimar.

No cronômetro, fechou em 41’59” - pace de 5:11 min/km.

Seção 13: Praia da Joaquina x Praia do Campeche - 7,7 km.

Depois de muitas horas correndo, eu estava em contagem regressiva dos trechos que eu ainda tinha que fazer, a todo instante repetia: “só faltam ...........”.

Aquele 13º trecho é considerado muito difícil, com 7,7 kms em areia fofa, corri margeando as ondas para pegar uma areia mais firme, fiz muito ziguezague, porém, correndo em linha reta você acaba enfrentando a areia fofa, o que se torna mais complicado.

Concluí mais uma empreitada em 42’21” - pace de 5:30 min/km, agora só faltavam dois trajetos para terminar minha missão.

Seção 14: Praia do Campeche x Armação - 4,9 km.

Trecho considerado muito difícil, com 4,9 km em areia fofa e asfalto.

Por conta da maré que estava subindo, não havia condições do atleta escapar da terrível areia fofa.

Um pouco desgastado, até o Fernandes sentiu a dificuldade do terreno, pois não há mecanismos para se correr naquelas condições, sem fazer muita força.

O resultado era evidente, ele fechou o trecho em 30’18” - pace de 6:11 min/km.

Seção 15: Armação x Pântano do Sul x Açores - 9,3 km.

Trecho considerado difícil, são 9,3 kms em areia fofa, asfalto e praia.

Com as forças exaurindo, começar correndo em areia fofa, não é tarefa fácil para os corredores. Para fugir daquele obstáculo, muitos optaram pela vegetação que fica ao fim da praia, onde também há muita areia fofa.

O agravante é que ali existia uma vegetação que provocava quedas, quando embaraçava nas pernas dos atletas. Diante das variáveis, ainda era mais rápido correr pela trilha do que pela praia.

Ao final da praia eu estava literalmente acabado, levei uma garrafa de água para usar durante todo o percurso, mas com 3 km, já tinha tomado toda a água.

Comecei a correr no asfalto e aos poucos fui melhorando o pace e paulatinamente, as forças foram retornando.

No final do trecho em asfalto, passei pelo meu amigo Sidnei, de São Paulo, que também estava correndo em dupla, convidei-o para prosseguirmos juntos, mas ele preferiu manter o ritmo menos cadenciado.

Estava bastante animado naquele momento, pois me encontrava no final do trecho e só teria apenas mais uma seção para finalizar minha participação na 19ª Volta à Ilha, fechei com 51’28” pace de 5:32 min/km. Estávamos agora em sexto lugar!!!

Seção 16: Açores x Morro do Sertão x Ribeirão da Ilha - 15 km.

Este é o trecho com a classificação de O mais difícil”, começando com asfalto e depois estrada de terra.

Na altura do km 3,5, começa a subida do "famigerado Morro do Sertão"São 3 kms onde se sobe 250 metros, o que equivale a inclinação média de 8,33%. Um verdadeiro pesadelo para todos os corredores!!!
Altimetria Morro do Sertão
Logo a seguir, na altura do km 8,5 - começa uma descida de 250 metros, em apenas 1 km, o piso era de paralelepípedo, tudo doía naquele instante (pé, tornozelo, joelho e região lombar) o atleta deve correr com a atenção redobrada, qualquer descuido o tombo é certo.

Com a cautela devida, Fernandes fechou este trecho em 1h30’ com pace 6:00 min/km.

Seção 17: Ribeirão da Ilha x Aeroporto x Via Expressa Sul - 15,2 km.

Quando chegamos ao estacionamento do ponto de troca, eu não conseguia trocar a meia e o tênis, estava sentindo muitas câimbras, nosso motorista teve que me ajudar, passei a fazer alguns alongamentos, tomei uma cápsula de sal e fui andando para o ponto de troca.

Ponto de Transição - Seção 17
Aquele trecho era considerado difícil, com 15,2 km, em calçamento e asfalto, com pouca variação de altimetria.

Quando o Fernandes chegou, eu não sentia mais as câimbras, entretanto, quase toda minha musculatura estava enrijecida.

Comecei a correr e aos poucos fui melhorando, a ponto de conseguir manter um ritmo próximo de 5:20 min/km, nas descidas e nos trechos planos.

Ao completar 11 km, meu ritmo foi piorando e por mais que tentasse não conseguia mantê-lo, a dor era quase insuportável (músculos posteriores, quadríceps e panturrilha).

Cheguei a cogitar que até o meu cérebro iria dar câimbras. Imagina!!! - Quase em colapso, não olhava para trás com receio de enxergar outro corredor de dupla, pois eu não tinha a mínima condição de aumentar o ritmo.

No km 13 - andei por cerca de cem metros, fui ultrapassado por corredores, que pelo ritmo, acreditei que seriam de equipes com 8 ou mais atletas. Foi quando consegui enxergar a passarela da redenção, que leva ao fim do trecho.

Aquela visão foi animadora, dando-me forças para aumentar o ritmo novamente. Concluí meu percurso em 1h26’23” pace de 5:41 min/km, ainda éramos a sexta dupla.

Seção 18: Via Expressa Sul x Linha de chegada - 6,2 km.

Trecho considerado fácil com 6,2 km em asfalto e em sua maioria, plano com algumas subidas continuas, porém leves. O difícil é você convencer alguém, que já rodou 65 kms, que o último percurso é fácil.

Mal havíamos começado o trecho e outra dupla estava passando pela área de transição, cerca de 15 segundos nos separavam.

Aquele corredor, espertamente forçou e ficou acompanhando o Fernandes, algo em torno de 10 metros, por certo, guardando forças para um tiro final.

Do carro de apoio, eu e o motorista Marlon, ficamos acompanhando os dois por um tempo, mas não avisamos nada para o Fernandes, pois conhecendo a fera, eu sabia que ele só seria ultrapassado se não conseguisse correr.

Assim, resolvi não colocar pressão no amigo e fomos direto para o local da chegada, fiquei esperando o Fernandes, para completarmos os metros finais juntos.

Como eu não sabia se chegariam disputando a posição, resolvi ficar bem próximo do final para não atrapalhar. Ledo engano, ele chegou soberano, o que nos permitiu correr os 30 metros finais juntos.

Samuel Toledo e Ornaldo Fernandes
No apagar das luzes e após a prova, Fernandes comentou que quando faltavam aproximadamente 1500 metros, ele já tinha percebido a audácia do outro corredor, aumentou o ritmo e não foi mais acompanhado.

O baixinho fechou o trecho em 31’25” pace de 5:04 min/km.

No resumo da ópera, ficamos em 6º lugar na categoria dupla, com o tempo total de 12 horas, 40 minutos e 24 segundos - pace médio de 5:26 min/km.

Na estatística para cada corredor:

*** Ornaldo Fernandes correu 71,2 kms em 6:15:10 - pace 5:16 min/km ***

*** Samuel Toledo correu 68,8 kms em 6:25:14 - pace 5:36 min/km ***

Para concluir a resenha, gostaria de agradecer ao amigo Silvestre, pela edição e postagem do texto no espaço do "Correr é Pura Paixão".

Sei que demorei na montagem da história, todavia, não poderia construir uma narrativa simples, que não demonstrasse o nível de dificuldade da corrida, bem assim, que não contemplasse as peculiaridades da inesquecível Volta à Ilha em Florianópolis.

Nesta condição, à cada oportunidade em que o amigo me cobrava pelo envio da postagem, fui buscando minhas memórias e reconstruindo os episódios dos trechos de corrida, como se falasse de uma pessoa; de suas ladeiras e dos pontos de referências (Praia de Sambaqui, Praia da Daniela, Jurerê, Cachoeira do Bom Jesus, Praia Brava, Praia dos Ingleses, Praia do Santinho, Moçambique, Praia da Joaquina, Praia do Campeche, Armação, Pântano do Sul, Açores, Morro do Sertão e Ribeirão da Ilha), enfim, retratei-os como portais mágicos aonde você vai superando seu cansaço e suas limitações.

Forte abraço e nos vemos no caminho,

Samuel Toledo



domingo, 8 de junho de 2014

Fantasmas imaginários - Comrades Marathon 2014

Por diversas vezes, já ouvi o comentário: "corredor é bicho neurótico". Na condição de bom ouvinte, jamais me contrapus a esta linha de pensamento, até porque, penso que seja uma neurose do bem, se é que isto existe!!!

Na manhã do dia 25 de maio de 2014 - domingo - logo após o término de um treino de 16 Km, iniciei uma conversa com minha esposa, narrando sobre o meu nível de ansiedade, naquelas últimas semanas de preparação para a corrida da África do Sul, falava dos meus receios e cuidados na reta final de preparação, em verdade, falava de meus fantasmas imaginários.

Ao tempo em que debatia o assunto, quase que de forma mecânica, porque não dizer, robotizada, alcancei uma bolsa de gelo reutilizável e sem muitas cerimônias, iniciei uma espécie de fisioterapia preventiva na junção mio tendínea, na região da panturrilha; uma parte do meu corpo que já sofreu alguns traumas.

No dia anterior - sábado - liguei para comentar com o amigo Samuel Toledo, sobre algumas precauções na reta final de preparação para a Comrades. Ele por sua vez, não deixou o assunto passar em branco e também assumiu o seu nível de preocupação:
"Silvestre!!! - pode ser neurose minha, mas um dos maiores receios que tenho é quanto à infecção da garganta, evito contato com pessoas com a garganta infeccionada.
Faço isto em decorrência de um processo natural que ocorre em ultramaratonistas, que é a baixa na resistência orgânica, na fase mais crítica do treinamento".
Samuel Toledo
No propósito de ilustrar o relato, embrenhei-me em alguns trabalhos acadêmicos - afetos à psicologia esportiva - quando então, encontrei uma dissertação de mestrado, assinada por Ligia Silveira Frascareli, sob o título: "Interfaces entre Psicologia e Esporte: Sobre o sentido de ser atleta", que me fez enxergar uma explicação um tanto quanto interessante, que ora me permito transcrever, com os devidos créditos da autora:
"Encontrou-se que o sentido dado pelos atletas à sua prática esportiva é absolutamente singular e que não pode ser definido com precisão, nem aprendido como conceito, por ser particular, de difícil verbalização e, como fenômeno, permanece em constante movimento de revelação e ocultação." 
Lígia Silveira Frascareli
Sem sombra de dúvidas, você percebe que esse tema - sobre nossos fantasmas imaginários - suscita e continuará suscitando discussões acaloradas, pois o sentido de nossas escolhas, enquanto atletas, é absolutamente singular, não conceitual e na mesma intensidade da corrida, está em constante mutação. 

Sendo assim, comecei a construir esta resenha, com esteio nas individualidades de quatro protagonistas: Wilson Bomfim - Samuel Toledo - Ornaldo Fernandes e Dionísio Silvestre - que novamente aceitaram o desafio de correr os 89,2 Kms da Comrades Marathon.

Sem receios de errar, acredito que o único aspecto em comum entre nós quatro, seja a paixão pela corrida e por via de resultado, a devoção pela Comrades.

O primeiro protagonista, Wilson Bomfim, 59 anos, micro empresário, é uma pessoa de fala mansa e extremamente introspectivo, sendo o atleta mais experiente do grupo com suas 08 Comrades. Nesta reta final de preparação, o guerreiro da Equipe Bsb Parque viu-se diante de dois enormes obstáculos (dois tombos em treinos), que lhes causaram repetidas lesões no joelho direito. É notório que seu fantasma imaginário - além da condro malácia do joelho direito (lesão antiga) - ficou por conta da incerteza, se as lesões se agravariam no decorrer da corrida. Seu desejo de completar a prova pela nona oportunidade, representaria estar a um passo do "Green Number Club".

Medalha Bill Rowan
No sentido oposto, eu, Dionísio Silvestre, 50 anos, militar, sou o pangaré de menor experiência do grupo, com apenas duas Comrades. Penso que a comunicação é o meu maior predicativo, pois adoro uma boa prosa. Apesar de não ter enfrentado obstáculos físicos na reta final, na condição de fantasma imaginário - elegi a meta de correr a Comrades sub 9 horas.

Nas duas ocasiões - 2012 e 2013 - deixei o sonho escapar por 6 e 16 minutos, respectivamente. Na condição de educador físico (formação acadêmica) e integrante da Equipe Bsb Parque, sempre acreditei que o sonho seria possível, entretanto, não podia esquecer das minhas limitações, bem como, que estávamos falando de 89,2 Kms, repletos de intermináveis subidas e descidas.



Seguindo adiante, o pequeno, destemido e agitado Ornaldo Fernandes, 43 anos, comerciante, é um dos 7 atletas Brasileiros(as), de um universo de 136, que estavam credenciados para largar no Pelotão "A". Em verdade, parece contraditório falar que o seu nível de performance é justamente o seu fantasma imaginário, pois em suas 03 participações na Comrades, trouxe para a Equipe Só Canelas, nada mais do que três medalhas "Bill Rowan", aquela destinada aos que concluem a prova sub 9 horas. Nesta reta final de preparação, reclamou de dores na região ciática, que o impedia de treinamentos prolongados. Sem outra alternativa, seguiu para a África do Sul com a cara e a coragem, para fazer frente ao seu melhor tempo (07:45:29), que foi conquistado logo na sua estréia.

Já o atleta Samuel Toledo, 50 anos, Administrador, com suas 04 Comrades, é o grande estrategista do grupo, camarada extremamente agregador e de fácil comunicação. É uma das figurinhas carimbadas do Parque da cidade no Distrito Federal, onde idealizou e criou a Equipe Bsb Parque. A meu ver, depois de 2010 - quando concluiu a Comrades com o seu melhor desempenho, deixou de participar da prova por receio de não conseguir superar seu recorde pessoal. Apesar de toda a sua metodologia e planejamento, penso que seu fantasma imaginário era justamente o seu melhor tempo na prova (07:59:38) - sem deixar de mencionar suas 04 medalhas "Bill Rowan".

Contrapondo-se aos fantasmas imaginários, além de nossas famílias, um cantinho especial de Brasília estaria, em sua essência singular, irradiando energia positiva em prol dos amigos corredores. Refiro-me à lixeira!!! - Não entendeu? - então explico!!!

Há considerável tempo, alguns amigos de Brasília, logo após o expediente de trabalho, começaram a se reunir no Parque da cidade. Antes de iniciarem a prática esportiva, vários assuntos do cotidiano eram debatidos - futebol, automobilismo, política, corridas - enfim, toda a sorte de assuntos. A resenha cativava-os de tal forma que eles não se deram conta que, naquelas tardes, estavam se reunindo próximo a uma das lixeiras do parque, um local um tanto quanto insalubre, daí, foram batizados: "Corredores da Lixeira".

Antecipadamente, rendo aqui minhas homenagens e agradecimentos à gigante "Equipe dos Corredores da Lixeira", que a meu entender, congrega alguns integrantes das Equipes: Só Canelas (Pedro, Reginaldo, Bruno e Fernandes); Concord (Marcelo Chaves, Marcelo Vidal e Tico); Bsb Parque (Samuel, Ari, Antonio, Márcio, Marcelo Alves, Chico Corredor e Ricardo-Big) e Ricardo (Só Óleos).

Igualmente, não posso deixar de agradecer aos companheiros da Equipe Ultras do Cerrado (Fábio, Luciana, Rodrigo, Lilian, Nelson, Jorge, Ana, Garotinho e Arlete), que por diversas oportunidades, compartilharam treinos e corridas, por este mundão afora.

No dia 28 de maio de 2014 - quarta feira, começava no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, o primeiro capítulo de nossa viagem. Naquele mesmo dia, a porta de saída do país se daria pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Almoço no Aeroporto de Guarulhos
Viajar para a cidade de Durban, que fica localizada no litoral do Oceano Índico, é necessário passar por Joanesburgo, que fica na região central da África do Sul.

Em decorrência da longa jornada - (Brasília x Guarulhos + Guarulhos x Joanesburgo + Joanesburgo x Durban ) - queríamos chegar logo aos hotéis e literalmente, correr para a retirada do kit de corrida.

Na quinta feira, 29 de maio de 2014, quando me aproximei do local da "Bonitas Comrades Expo", um filme saudosista começou a rodar em minha mente, lembrei-me de cada detalhe quando entrei e respirei aquela atmosfera pela primeira oportunidade em 2012.

Naquela ocasião, os companheiros mais experientes foram essenciais para desembaraçar e ajustar questões relacionadas ao chip de cronometragem do número 52574 - meu número na Comrades.
Bonitas Comrades Expo
Pisar naquele local tem um significado muito especial, jamais imaginei que conseguiria participar e concluir a Comrades Marathon.

Na véspera da corrida, à noite, para controlar a ansiedade, que tal fazer o "check list" da armadura do guerreiro: tênis, chip, meia, bermuda com 2 bolsos, camiseta, números, camisa manga longa (descarte), gorro, boné, óculos, gps, suplementação, garrafinha (fugir  da muvuca nos primeiros postos de hidratação).
Armadura do guerreiro.
Penso que tá tudo em Ordem. É chegada a hora do Progresso !@@! Não podemos esquecer da roupa pós corrida, para ser usada no final, no local de reunião dos corredores de outros países - International Tent - mochila, chinelo, toalha, muda de roupa completa e agasalho.
Confraternização Brasil e Suíça
Stephan Keller (25664)  e Cavelti Roland (22152)

Domingo, 01 de junho de 2014, temperatura agradável em Pietermaritzburg - 11 graus aproximadamente - lá estávamos, prontos para o bom combate e aptos para enfrentar o somatório de nossos fantasmas, Durban era a nossa meta a 89,2 kms de distância.
Após o cerimonial, a preocupação era o material displicentemente deixado ao longo da avenida - garrafas cheias e vazias, sacos plásticos, camisas, agasalhos, tocas, luvas e cobertores - tropeçar em qualquer um daqueles objetos poderia representar, além de uma lesão, a possibilidade de ser pisoteado pelos corredores que vinham imediatamente atrás.

Após o ponto de partida, teríamos 06 postos de cronometragem - Lion Park, Halfway, Winston Park, Cowies Hill, Mayville e finalmente o gramado do "Sahara Stadium Kingsmead" em Durban.

Lion Park - 17, 50 Kms

Na escuridão da madrugada, com uma velocidade impressionante - Fernandes que largou no Pelotão "A" - correu os primeiros 17,5 Kms em 01:20:17, ritmo de 04:36. Quando ele passou pelo primeiro posto de cronometragem, faltavam pouco para se atingir "Highest Point" - a 870 metros acima do nível do mar. 

Um pouco mais cadenciado, eu e o guru Samuel - que largamos no Pelotão "C" - adotamos postura conservadora, nosso ritmo inicial foi melhorando gradativamente, passamos naquele local cerca de 24 minutos depois do baixinho. O ritmo oscilava entre 05:59 e 06:02. O dia chegava vagarosamente.

Por volta do km 13 - realizei um "pit stop -1" - confirmando que o corpo estava muito bem hidratado, pouco tempo depois, alcancei o guru Samuel.

O guerreiro Bomfim - que largou no Pelotão "D" - encontrou dificuldades na largada, muitos corredores dos "Pelotões F, G e H", resolveram burlar o sistema para largar pouco mais à frente, complicando o começo de prova dos mais rápidos.

Após superar aquele primeiro obstáculo, o mestre passou por Lion Park com 02:01:41, ritmo de 06:58. O clima ainda estava muito agradável para uma corridinha!!!

A tão temida Polly Shorts fica naquele trecho, entretanto, no percurso "down run" ela é favorável aos atletas, ou seja, é uma descida longa de aproximadamente 1,8 km - com perda de altimetria de 110 metros. 

Halfway - 44, 97 Kms

No mesmo embalo do primeiro trecho, Fernandes continuava a sentar a bota lá na frente, passou pela metade do percurso em nada menos do que 03:32:49 (incrível), ritmo de prova 04:44 (loucura total). O clima começava a esquentar.

Em dado momento, Fernandes parou para abraçar algumas crianças da Ethembeni School for Handicapped Children, uma escola especial, além de alguns segundos de prova, também perdeu o boné, que foi retirado de sua cabeça por um dos alunos. Por outro lado, saiu daquele local com as energias renovadas para a segunda metade da corrida.

Com a cautela de sempre, passei pela metade do caminho com 04:19:43, meu ritmo de prova havia melhorado, chegando a 05:47 min/km.
O ritual de doação de agasalhos, blusas, tocas e luvas começava a partir daquele trecho.

Ao longo da rodovia, crianças e adultos, aguardavam a doação das roupas dos atletas que até aquele momento, tinha sido a proteção contra o frio da madrugada.

Samuel, que havia feito um "pit stop - 2", estava 06 minutos atrasado, com a parada estratégica, o ritmo do amigo havia diminuído para 05:55 min/km. A meta do sub 9 horas estava sendo cumprido à risca por nós dois.

O velho Bomfa, continuava naquele batidão de sempre, com 04:58:46 de prova, passou pelo mesmo ponto de cronometragem, o ritmo melhorou - 06:39 min/km.

Winston Park - 58, 27 Kms

Winston Park é o divisor de águas no percurso "down run", daquele ponto em diante, prevalecem as descidas. Na minha ótica, a estratégia passa a ser o ponto primordial para se alcançar as metas e sonhos.

O amigo Fernandes, que disse ter corrido sem estratégia, sonhava com a medalha de prata (sub 07:30 horas), assim continuou sua batalha e passou pelo terceiro ponto de cronometragem com 04:42:34 horas de prova, seu ritmo continuava excelente para aquela altura da corrida - ritmo 04:51 min/km.

Meu sonho era um pouco menos audacioso, ao longo dos últimos três anos flertei com a Medalha Bill Rowan (sub 9 horas). Ultrapassei Winston Park com - 05:45:40 horas - após o tiro do canhão, meu ritmo não oscilava - 05:56 min/km.
Naquele momento, algo inusitado aconteceu com o guru Samuel, além da blusa e das luvas que foram doadas na primeira metade do percurso, em razão do desconforto que lhe causava, ele também doou o boné, se livrando de tudo o que lhe trazia desconforto.

Até os saches de gel de carboidrato o companheiro saiu doando. O camarada endoidou de vez, a agonia lhe tirava as energias, contaminando sua corrida.

A passagem pelo posto de cronometragem deu-se com - 05:51:16 - horas do momento da largada, o ritmo continuava na casa de 06:02 minutos para cada km corrido.

O professor Wilson Bomfim, com sua inseparável "playlist", continuava soberano  - 06:32: 35 de prova - e ritmo 06:45 min/km. Muito bom!!!

Cowies Hill - 71,00 Kms

Logo após concluir mais um trecho, Fernandes encontrou o atleta Adriano Bastos - primeiro Brasileiro na Comrades em 2013 - de modo diverso ao guerreiro da lixeira, Bastos já não reunia energias para seguir adiante, estava entregue ao cansaço.

Por outro lado, o baixinho voador, continuava firme, forte e ritmado - 04:53 min/km - de tal sorte que passou pelo ponto de cronometragem com 05:46:15 horas.

Quando lhe perguntei sobre a sensação de ter ultrapassado o melhor Brasileiro do ano passado, Fernandes me deu a seguinte resposta:

- Silvestre, não fiquei feliz em saber que eu estava muito bem e ele parecia ter quebrado!!!

Da minha parte, passei a administrar o que construí ao longo daqueles 71 km de prova, quando enxergava uma subida mais complicada, corria sua terça parte e caminhava os dois terços finais.
Recordei-me de meus treinos na cidade de Guaíra, Paraná, quando exaustivamente ensaiei a alternância de ritmos (caminhada e corrida), simulando o cansaço que adviria na prova.

Mantive meu ritmo de 05:56 min/km, completando mais um trecho com um minuto acima das 7 horas de prova - 07:01:00 (incrível). Pouco tempo depois, cerca de 10 minutos, Samuel Toledo passaria com - 07:10:12.

Nossa diferença de ritmo era na casa de oito segundos para cada km, uma vez que no somatório geral, ele estava mantendo a média de 06:04 min/km, ou seja, o guerreiro vinha bem próximo.

No passo dos ultramaratonistas experientes, Wilson Bonfim passou pelo km 71, com pouco mais de oito horas - 08:07:11 - seu ritmo de 06:52 min/km - estava dentro do esperado.

A única reclamação dizia respeito a incapacidade de continuar comendo os alimentos, tudo que o amigo tentava comer lhe causava náuseas. O jeito era improvisar e buscar a solução nos líquidos disponibilizados pela organização da prova (água e energade).

Mayville - 82,28 Kms

A região metropolitana de Durban estava repleta de pessoas, ao longo do caminho, inúmeras famílias. Naquele trecho, Fernandes passaria por outro renomado atleta, era Eduardo Calixto - Campeão da BR 135 nos anos 2012 e 2013.

Quando Fernandes passou pelo pórtico de cronometragem, o relógio oficial da prova marcava - 06:48:40 - seu ritmo continuava excelente- 04:58 min/km. Os últimos 7 kms seriam percorridos de alma lavada.

Quanto ao pangaré que escreve a resenha, a questão era de pura matemática, quando me aproximei do tapete de cronometragem, o tempo de prova era - 08:10:03 - o ritmo estava 9 segundos melhor do que eu esperava.
Imediatamente fiz as contas (7 x 6 = 42), pensei: "se até aqui com subidas e descidas consegui manter - 05:58 min/km - vai ser moleza correr 6 x 1 agora".

Eu estava corretíssimo!!! - Em virtude da condição de terreno plano, me entusiasmei e percorri o meu melhor trecho na prova, nem parecia que eu havia percorrido mais de 84 kms.

Nossos dois últimos amigos, Samuel e Bomfim, passaram por Mayville em - 08:40:29 - e 09:36:35 - ritmos de - 06:20 - e - 07:01.

"Sahara Stadium Kingsmead".

Faltava 1 km quando Fernandes olhou para o relógio e percebeu que ainda tinha 10 minutos para o tempo de 07:30 horas de prova. O sonho da medalha de prata começava a se materializar.

Definitivamente, o atleta da equipe Só Canelas realizaria o sonho. Naquele instante, dava-se ao luxo de correr mais cadenciado.

Quando alcançou o último tapete de cronometragem no gramado do "Sahara Stadium Kingsmead", o telão do estádio explodia nas cores verde e amarela.
No ranking entre os atletas brasileiros, Fernandes era o terceiro na prova - 07:25:43 horas de corrida e ritmo de 05:00 min/km.

Em nosso grupo havia um lema: "Quem chegar primeiro aguarda os demais!!!"
Comrades Marathon 2014
Medalha Bill Rowan
Algum tempo depois, me aproximei do estádio, desenrolei a Bandeira do Brasil e agitando-a, percorri todo o gramado, chegando ao derradeiro tapete de cronometragem - 08:50:48 - ritmo 05:57.
Estávamos aguardando Samuel Toledo na tenda internacional, seu filho Lucas era o nosso Assessor para Assuntos Especiais - por intermédio do zap zap - ele estava mantendo contato com alguns "Corredores da Lixeira em Brasília", e nos repassava as informações sobre o desempenho de seu pai.
Não demorou muito para comemorarmos a chegada de mais um da lixeira, com - 09:28:55 - de tempo bruto, Samuel Toledo chegaria "bufando" - seu ritmo: 06:23.
Faltava o mestre Bomfim para a festa dos "Corredores da Lixeira" começar em grande estilo. Olhávamos o relógio e nada do companheiro. A cada amigo que chegava, disparavamos a pergunta - Você viu o Bomfim? - Não!!!
Quase no apagar das luzes, descobrimos que o "espaçoso" havia terminado a corrida e estava tirando uma bela soneca no gramado que fica bem ao lado da tenda internacional - vai entender esse camarada!!! - Seu tempo de corrida - 10:34:37 - seu ritmo 07:07 min/km.

Com as 9 medalhas conquistadas na Comrades, o amigo Wilson Bomfim está a um passo do Green Number Club. A festa vai ser muito boa em 31 de maio de 2015, pois além do terceiro Brasileiro e Sul Americano a receber esta homenagem, teremos também, a Sul Mato-Grossense, Ana Márcia, que será a primeira Brasileira e Sul Americana a receber o tão cobiçado selo verde.


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No resumo da ópera, os quatro amigos com suas virtudes e limitações, venceram seus fantasmas imaginários.


Gráfico de ritmos - Comrades Marathon 2014
A título de ilustração, compilei o gráfico de ritmos dos 4 camaradas. A linha de tendência azul representa o desempenho do corredor nº 58788 - Fernandes; a vermelha a "corridinha mixuruca" do atleta nº 52574 - Silvestre; na cor amarela, temos o ritmo que foi empregado pelo nº 39401 - Samuel; e na cor verde - mensagem subliminar sem igual - o pace de corrida do "Aspira" Bomfim - 30059.

Ultra abraço,

Dionísio Silvestre




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